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almanaque de ironias menores

caderno de exercícios avulsos e breves, por serôdio d’o. & 3ás 

30.7.05


hossana à noite escura. em the night of the iguana, a noite é a cor o corpo da salvação. 3.

referência

29.7.05


o idílio urbano de constantino corbain

iii.
contágio, não transparência. o que começa depois
do princípio é por contágio profano. diz-se
suficiente a tangente das bocas, o sopro, o
coração. o limite é o beijo, a carne encontrada,
a última composição da noite.

foi quando, um dia, a porta da carruagem do metropolitano
se fechou que ele começou a estancar os sentidos.
jogou-se no tabuleiro do xadrez das paixões
e, porque solitário, decidiu ser escritor de canções.

escreveu uma canção de amor, com o título carrossel
para frankfurt am main
. assim,

para frankfurt am main. assim, o domingo é um dia
sem deus. ao domingo são alimentados os fantasmas
e os mártires. ao domingo somos o engano.
e os enganados também.
e os enganados também. tudo é banal, o bem e o mal.
e, tu, és femme fatale.
e os enganados também. tudo é banal, o bem e o mal.
e, tu, és femme fatale.
e, tu, és femme fatale. sem o murmúrio, mon amour.

levitação de meia noite. pétala de pátria
em adolescente. saturno nocturno. se te amo, nunca.
nunca mais. somos fatais. e imortais.
nunca mais. somos fatais. e imortais. tudo é banal, o bem e o mal.
e, tu, és femme fatale.
nunca mais. somos fatais. e imortais. tudo é banal, o bem e o mal.
e, tu, és femme fatale.
e, tu, és femme fatale. sem o murmúrio, mon amour. s. d’o.

referência

28.7.05


vontade. ser a árvore que se sacia com o próprio fruto, o pecado. 3.

referência

27.7.05


o idílio urbano de constantino corbain

ii.
às vezes, o quebranto, mas não a falência. as palavras
caladas, sim, mas caladas porque vivas.

às vezes, o quebranto.

no quebranto, foi o amor o que ele calou. não disse
senti a tua falta, mas sentiu o que corresponde a essa
sentença.

nenhum anjo crioulo. nenhuma língua capaz para
a fuga. são erros do mundo. mas as flores
fluorescem e os relógios, na sua demora, continuam
a compassar o ritmo das voltas.

mesmo que deus não exista, podemos. somos o ser
e, nele, o tempo.

mas no quebranto, foi o amor o que ele calou. não disse
senti a tua falta, mas sentiu a sua ausência. e
escreveu, fazes-me falta, fazes-me falta no poema.
que a minha vida não é. s. d’o.

referência

26.7.05


natureza dormente. a bela adormecida é entre os frutos que são pecado. 3.

referência

25.7.05


o idílio urbano de constantino corbain

i.
o que pode dizer-se? que não repita
uma oração. o que pode fazer-se?
que não seja já obra.

vozes. uma maçã no escuro. dois, três, quatro passos.
um outro, mais. seis, sete. após, acontece o silêncio.

lá fora, ergue-se o vento. rasga entre o
empeno da porta. dentro, um corpo quieto, encostado
ao medo, purga a dor. o televisor está desligado. surge
a dúvida.

de onde promana a lágrima? que se vê. s. d’o.

referência

23.7.05


superfície. o espelho é o produto de uma negociação, de modelo do ut des, três por duas dimensões, negociação em que ninguém ganha o que não tem. 3.

referência

22.7.05


amortal

que fosse. não há salvação que
não se consume na carne. no
sangue. e na navalha. s. d’o.

referência

21.7.05


palimpsesto. caligrafa-me o corpo a negro teu. 3.

referência

20.7.05


contrato

talvez fosse urgência, o contrato de
joão artur.

as vozes, em coral, exiladas numa
melodia nocturna. as fragas e os
medos. o movimento sem aparência
astral. sucediam-se os lotes de
instantaneidade, os estandartes
torturados, o sangue da paz. sucediam-se
no terraço da esplanada, sucediam-se no
escritório. no corpo dele também, o
domicílio de todos os lugares.

domicílio de todos os lugares. de tudo
isso quis fugir joão artur. e fugiu.

ausente, o que sou?, perguntou ele.
és senhor de ti, o teu próprio domínio,
respondeu-lhe a mais autorizada das vozes,
a voz do seu contratante. ouvido isto,
joão artur pegou numa caneta e, como último
parágrafo de uma folha, lavrou c’est le feu
que si relève avec son damné
. era a
sensação de repetir henrique, mas sem
a hipótese de margarida, o resgate
do amor.

quando o pano caiu sobre a cena, a tragédia
não terminou. dela não era possível
a denúncia.

a denúncia. e continuou. cravada na mesma
carne. posta na mesma narrativa. s. d’o.

(“c’est le feu que si relève avec son damné” é a última frase de “nuit de l’enfer”, parcela de une saison en enfer, de rimbaud).

referência

19.7.05


corpergaminho. em the pillow book, realizado por peter greenaway, a mensagem é o próprio corpo, não o que nele é inscrito. 3.

referência

18.7.05


se houvesse um pessegueiro na ilha. sob o capítulo dos medos havia uma janela bucólica, marcada com uma insígnia branca. sob ela existiam duas palavras, espiral e norte. naquele lugar, se acontecesse haver, a sombra não era adorno da paisagem, era apenas uma sombra. ali as pessoas chegavam lentamente. depois sentavam-se num círculo e esperavam a noite. durante essa espera o seu corpo era levado e envelheciam. havia nesse envelhecimento uma invisibilidade que jamais foi verificada em qualquer outro processo semelhante. as pessoas envelheciam tanto que começavam a falar línguas mortas, do tempo da inauguração do mundo. a caligrafia, essa, era mais difícil. por isso, no ofício da escrita ninguém se aventurava. as pessoas, sentadas num círculo, limitavam-se a murmurar repetidamente a mesma oração. e a envelhecer, até ultrapassarem o respectivo nascimento. nesse momento, o círculo crescia e, ultrapassando todo o espaço, deixava de ser uma forma perceptível. nesse momento, a janela bucólica fechava-se. começava a noite. começava outro e o mesmo mundo. s. d’o.

referência

16.7.05


ontologia. o ser, sentido, é necessariamente pela respectiva sensação. ou seja, o ser, sentido, é redundante, no próprio e exacto termo em que um continente se reporta a si-mesmo, por nenhum outro território, corpo, ser assim habitado. 3.

referência

15.7.05


peregrinação. um erro só se percebe acontecido. antes é apenas uma hipótese, um temor, nunca uma canção. vou?, vens?, ficamos?, são interrogaçõess demais, sob esta temperatura. verão, dizes que é. também poderia ser outono, se admitíssemos. wasted and wounded, it ain’t what the moon did
i’ve got what i paid for now
see ya tomorrow, hey frank, can i borrow
a couple of bucks from you, to go
... vamos, se o plural, um, dois, chega, se confirmar. um gin tónico, se faz favor. outro. waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. e depois?, se depois. os mesmos lugares?, os mesmos gestos?, as mesmas palavras?, a mesma dança?, sem segurar o copo na mão. i’m an innocent victim of a blinded alley
and i’m tired of all these soldiers here
no one speaks english, and everything’s broken
and my stacys are soaking wet
... não é possível esperar mais. esperar é prolongar o engano, o logro, permiti-lo sempre, futuro também. é necessário resistir, voltar, prosseguir. continuar. vamos?, pergunto-te, calando a vontade de ficar, permanecer naquele chão, naquele terreiro. to go waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. saímos. verdadeiramente não saímos. tu ficas, guardas-te. eu também. fico. para ficar contigo. deixamos ir os corpos, ficamos para trás. mas os corpos não vão. now the dogs are barking
and the taxi cab’s parking
a lot they can do for me
i begged you to stab me
you tore my shirt open
and i’m down on my knees tonight
old bushmill’s i staggered
you buried the dagger in
your silhouette window light go to go
... este é o caminho das águas, o teu testemunho, o teu princípio. as mãos, as nossas mãos, não se encontram. por que não abranda a tua vingança? por que nos aproximamo-nos da distância?, o lugar de onde todo este caminho nosso se observa. waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. não hesitas, segues. o meu corpo também. estou fraco, confirma-se o meu ser. confirma-se o ditado que a sibila extraiu do oráculo. mas vou no teu encalce. foges?, penso a interrogação para mim, sem encontrar resposta. algo protege este caminho. disseram-nos, quando passámos sob os arcos, que era seguro guiar por caminho. segues, és a tua custódia. eu apenas te persigo. vacilo, estremeço, anuncio a mim mesmo a queda. a minha. atrás de ti. now i lost my saint christopher
now that i’ve kissed her and the
one-armed bandit knows, and the
maverick chinaman, and the cold-blooded signs
and the girls down by the strip-tease shows go
... recordas a nossa infância?, a inocência que roubávamos? recordas a nossa juventude?, os audazes ímpetos?, a paixão que lavrávamos? tens uma memória vaga... vais por aqui? é por aqui que queres ir? não, não sei se este rumo é um ardil. talvez seja. não conheço este território. não é o meu peito. também não é o teu. waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. o que te leva não te leva para mim. está bem, hoje acampamos aqui, neste bosque. será um acampamento com cautela. podes dormitar nos meus braços, se quiseres. deixá-los-ei em sentinela. dispostos às armas, à defesa, caso seja necessário. amo-te, já te disse?, já te repeti esta certeza? durante a campanha em que vamos. agora dorme, descansa. no, i don’t want your sympathy
the fugitives say that the streets aren’t for dreaming now
manslaughter dragnets and the ghosts that sell memories
they want a piece of the action anyhow go
... os lugares que nos cercam estão em silêncio. o fogo também dorme. não temos mais companhia. os vultos que nos vigiam são de vento. vêm do litoral e procuram as muralhas exactas para se confortarem. ouves?, transportam ainda o marulhar. repousa, nada tens a temer. estes sulcos protegem-nos. e a lua, nestes baixios, não se deixa enganar com os ecos do mar. toma os meus braços. toma o meu corpo. ele ainda tem a tua forma. waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. ateia-se em mim a morte. lavar as feridas é já sorte. sobre o corpo o linho que será a minha mortalha. abre-se a terra. o sangue já não escorre. sobe o fumo. depois desperto. o espírito tinha sido quebrado com o corpo, no sono. olho-te, sou o vigilante da tua vigília. ainda a lua não desceu ao seu funeral. tudo ainda acontece lento. and you can ask any sailor
and the keys from the jailor
and the old men in wheelchairs know
that mathilda’s the defendant, she killed about a hundred
and she follows wherever you may go
... quando te trespassa um sopro de vida que te vem de dentro, acordas. mal erguida, brandes a energia dos levantados e precipitas os passos. sigo-te, procuro-te. insisto em devolver-me a ti. waltzing mathilda, waltzing mathilda, you’ll go waltzing mathilda with me. mas vais já longe, para além do meu alcance. toco-te apenas com a palavra que posso no instante. não te escondes. vejo-te apenas a aproximares-te de mim. porém não sei se regressas. pode ser uma ilusão. pode ser o que acontece. and it’s a battered old suitcase
to a hotel someplace
and a wound that will never heal
no prima donna, the perfume is on
an old shirt that is stained
with blood and whiskey
and goodnight to the street sweepers
the night watchman flame keepers
and goodnight to mathilda too
. mas é estranho que numa peregrinação, como esta, o reencontro comece com alguém, um de nós, a pronunciar a palavra adeus. s. d’o.

(este texto é interceptado pela letra de “tom traubert’s blues (four sheets to the wind in copenhagen)”, canção escrita por tom waits e originalmente editada no álbum small change).

referência

14.7.05


urbacidade. uma cidade é um plano onde os corpos se encontram não por necessidade, mas por probabilidade – probabilidade decorrente da densidade corporal. daí que a primeira condição da felicidade dos urbanitas seja a recodificação dos toques, dos roços acidentais em encontros úteis ou significantes. a natureza apenas encontra o remanescente. 3.

referência

13.7.05


coffee-break

é tempo de oração. sente-se a paisagem branca
a replicar. o sol acende-se mais, num último
fulgor de luz. os corpos convergem, atraídos
pelo chamamento do minarete. a esplanada da
mesquita enche-se. depois, o silêncio.

mesquita enche-se. depois, o silêncio. é o
mundo a acontecer dentro de si, em surdina
guiada contra deus. algures, indiferente,
o mar aproxima-se. e vai. talhando uma sede. s. d’o.

referência

12.7.05


realeza. “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua”, é uma frase do livro do desassossego. há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua... reportada ao respectivo contexto, percebe-se que o que está em equação nesta frase é menos a realidade das metáforas do que a irrealidade da gente que anda na rua. o que é matéria suficiente para o sossego. 3.

referência

11.7.05


procuração

o que acontece?, se as mãos
soltas neste terroir. s. d’o.

referência

9.7.05


lipset. enfrentar o espelho é um modo de entrar na dúvida da identidade que ele devolve. 3.

referência

8.7.05


a morte

a morte é toda esta luz frontal
que entra no teu emblema. s. d’o.

referência

7.7.05


the ground beneath her feet. há passos que são o caminho pelo precipício, sobre o destino, contra a serventia. 3.

referência

6.7.05


incesto de fome. não há noite. não há vento. talvez seja o retorno à infância. talvez seja a fronteira possível do que é. não há eira. não há pão. talvez seja um jogo. talvez seja nada. não há remorso. talvez a luz seja uma armadilha. talvez seja a inocência. talvez seja a morte guardada na espera. não há medo. não há suspiro. não há morte. não há tempo. talvez seja assim. s. d’o.

referência

5.7.05


der blaue engel. não me chores azulamo-te, rogou nikopol, o eviterno, a jill. 3.

referência

4.7.05


oportunidade

inclina-se para o pecado. nesse
gesto nasce-lhe, para ela e
para todos, o futuro. porém, naquela
tarde, o lanche nunca chegará. s. d’o.

referência

2.7.05


mundanidade. o tempo também se revela no horizonte do ser? é com esta interrogação que heidegger encerra sein und zeit. o enunciado interrogativo pode considerar-se ontológico. mas, traçado na oportunidade em que foi, justamente no remate do livro que pretendia responder à pergunta o que é o ser?, é também um enunciado irónico. 3.

referência

1.7.05


continuação

se o teu corpo te consome.
se foges e gritas, quero mundo.
se ficas e trais a fome.
se nada e muito e gritas, quero mais.

pode dizer-se que o homem
não se mede aos mundos.
pode dizer-se que o mundo
não se mede aos homens.

e tu, que gritas, és mulher.
e mundo inteiro, acabado. em
ti. e gritas, vou continuar. s. d’o.

referência

2004/2017 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).