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almanaque de ironias menores

caderno de exercícios avulsos e breves, por serôdio d’o. & 3ás 

29.9.08


os conspiradores

o que havia?, boatos, segredos, ditos clandestinos,
para servir uma fraternidade, uma outra forma de estar.
também havia quem escrevesse nas paredes, eram dois
ou três, sem pretensão de merecer ou ter leitores.
talvez por causa de uma urgência sua ou de uma necessidade,
escreviam, não se sabe mais do que isto. e tudo continuou
como estava, demasiado perfeito para poder ser diferente. s. d’o.

referência

19.9.08


numa tarde de inverno

agora, justamente agora, os rapazes estão parados,
só estão parados, e de si emana uma melancolia maior,
o máximo de melancolia possível, destacando deles
a respectiva aura, processo que os transforma em vestígios
da cena. e através deles a narrativa é puxada até ao limite,
para dizer-se como se diz depois da morte, não sei quem são,
não sei quem foram. a paisagem esconde-os na sua presença. s. d’o.

referência

17.9.08


a família

estou cansado e sou livre, o que são motivos suficientes
para começar esta oração.

um avô disse, o outro avô disse, uma das avós disse,
a mãe disse, o pai disse, o irmão disse, a irmã disse,
deus disse e com ele todos os anjos disseram também,
está quieto, mas ele não estava. e assim cresceu,
como uma torção para a qual sempre houve censura
mas nunca houve terapêutica.

ele tornou-se adulto utilizando o método do desejo,
e isto não é metáfora. caminhou por desvios e regressos
vários, porém por não tantos quantos os que encontrou,
porque escrutinou-os com a vontade. demorou jornadas
no lado dos perdidos, assumiu a propriedade vaga dos nómadas
e aprendeu a orientar-se pelos elementos, sem, no entanto,
esquecer-se de onde havia partido e a onde às vezes tornava,
a casa.

um dia, coincidente com um dos seus retornos a casa, sem aviso,
como foram todos os seus retornos, juntou-se à família.
reunidos, todos ficaram calados e ele, porque parte de todos,
entrou na sala, sentou-se entre eles e ficou calado também.
a partir de determinado momento, longo o silêncio e o incómodo,
alguns levantaram-se e, sem dizerem qualquer palavra,
abandonaram a sala e foram passear para o jardim,
seguindo os contornos da topiaria amanhada com cuidado.
havia felicidade naquele caminho entre as cores, dizia-se.
à medida que tais alguns se afastaram, os seus passos ressoaram
sobre o soalho, antes de, por dissipação, apagar-se o respectivo som.
provocadas as folgas da madeira, o sobrado pisado também rangeu.
estes ruídos, nítidos, talvez nítidos em demasia, cortaram o silêncio
que havia na casa. então, dentro da sala, alguém começou a assobiar.
ele levantou-se, segurou o cortinado de uma das janelas, afastando-o,
e, sem pressa, através do vidro, ficou a observar a torre imponente,
que, pelo tempo e pelo coro calado das vozes daquela casa,
a família haveria de falir.
s. d’o.

referência

15.9.08


antes

durante a infância, tínhamos todos os dias para começar. bastava acordar. o tempo obedecia a uma economia de princípio. era muito o que podíamos perder, quase tudo, mais do que quase tudo. não repetíamos os erros por haver muitos mais do que aqueles que havíamos já cometido. era assim que aprendíamos as novidades. todos os dias. diante desfilava tudo o que ainda poderia acontecer, um mistério sem guião. não poupávamos nos gestos, apenas nas palavras, porque eram-nos estranhas. colhíamos pedras do chão, para, uma a uma, as atirar à agua e testemunhar a vibração que resultava do choque dos elementos diferentes. havia uma prova de culpa que era necessário confirmar e aí demoravam-se os nossos gestos. sempre depois, sentíamos crescer a soberania. sentíamos haver amanhã, porque todos os dias eram para começar. e das pedras e da água passámos às plantas e aos animais. aos poucos passámos a nós também. entranhava-se a vida no corpo, a sequência das coisas, a consequência dos outros, as distâncias. no dia em que aconteceu o primeiro regresso deixámos de poder voltar. havia já na carne o amanho a que não era possível renunciar. uma forma comprimia o corpo. então, já. laus deo. a partir desse momento, crescer foi a continuação possível, sem a ideia de forma, sem ritmo preciso, mas guardados na forma. que agora, folie à deux, é um órgão nosso. s. d’o.

referência

5.9.08


cavilha de segurança

com um nome é mais fácil avançar.
o nome leva ao encontro e, caso algo falhe,
permite uma referência sobre o destinatário
a quem dirigir a devolução. que é o mesmo
frio íntimo de que, antes, foi tentada a partida,
a ausência. s. d’o.

referência

3.9.08


depois

um momento. chega o alcance, ninguém mais. este mundo nasce
da assimetria, da zona de contacto que une e cinge as mãos
à bancada e ao ofício. sobre ele, página a página, folha a folha,
a morte regressa mais calada ao nome. o nome enche-se do que aponta.

depois, ainda nome, um poema, um pomar, superfície e estria
onde o dorso da coisa acende. as mãos, os dedos, a fender os frutos
cheios. o sangue solene do lado da água, o declive do osso, canal menor
e aberto. os flancos da terra, a respiração em medida certa, a cratera
assimétrica no peito, o peito que aperta, que encerra a respiração,
antes da última palavra. sou eu, não finjo mais. estou sozinho.

agora preciso de um nome para morrer, para continuar. s. d’o.

referência

1.9.08


veredas para depois, vii

crendo e querendo que a idade há-de devolver
o que levou, esforçam-se a memória, os papéis,
as vozes, os cheiros que ficaram. resiste-se à espera
e continua a crer-se no retorno, porque, sabe-se,
é do regime das coisas voltar. o que não vê
é que a cicatriz restaura devagar a perda,
porque nada demora eternamente sobre o tempo. s. d’o.

referência

2004/2017 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).