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almanaque de ironias menores

caderno de exercícios avulsos e breves, por serôdio d’o. & 3ás 

11.7.17


propedêutica, iii


deus é uma ideia repetida.
a cruz sou eu. s. d’o.

referência

6.7.17


histerese


há duas gatas lá em casa.
conto três. s. d’o.

referência

4.7.17


passe-partout


foi inaugurada a cratera entre dois nomes,
a morte e tu, e nessa força veio o mundo
como o deixaste e está.

na ronda, a dúvida, depois a indagação,
o que é ser feliz?, como pode estar-se isso? s. d’o.

referência

29.6.17


propedêutica, ii


da pureza prevalece a crueza.
que esta morada seja apesar
dos destroços. s. d’o.

referência

27.6.17


exercício de rescaldo


e tu, no teu completo, quem és?
pareces ninguém, se alguém
que conheci tão bem. s. d’o.

referência

22.6.17


propedêutica, i


não há substância, apenas condição.
criaturas estranhas precipitam-se
para o retrovisor. passa o tempo,
cresce nas coisas, passam também,
levando consigo o nome que não encontram.

no reino de amanhã, o nosso, continuará
a não a haver deus como é. s. d’o.

referência

20.6.17


canção de amigo, x


adormeço virado para o teu lado.
não estás, eu também não. s. d’o.

referência

15.6.17


“cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e seduz. e a concupiscência, depois de ter concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.”*

totus tuus


para que é o corpo?, para descobrir-se, ser solto
de si, para ser prova das provas de abandono
e de contacto, mais do que habitação, do que écran,
hematoma, mais do que traumatismo, metástase,

do que cabeça, tronco e membros, termo de fome
ou outras admoestações. goodbye soft machine,
adiós maquina blanda, auf widersehen weich
maschine
, au revoir machine molle. o choque


é frontal, a velocidade proibida, a da libertação.
adeus máquina macia. a salvação, que salvação?,
será pela tesão. olá, bone machine. e desta saudação

acontece réplica em línguas de escala ou de destino
diferentes. não sou eu que estou aqui. outra morte
chama, pode dizer-se, outra morte chama por mim. s. d’o.
____________________
* versículos catorze e quinze do capítulo primeiro da carta de tiago.

referência

13.6.17


vereda


os membros assentes no desequilíbrio.
o teu coração, tão alavanca quão ponto
de fuga, soltei-o. o chão range. tenho pé,
tenho mão, embora agora, seguro, não.

mantém-me a morte, traz-me o vão,
nada que valha mistério ou oração,
nada por que seja vaso ou salvação,
porque, o que continua a ser, é ainda
peregrinação, tu a mesma direcção. s. d’o.

referência

8.6.17


a espera intacta


a espera intacta, o sentimento que combina
na fractura, recomeça o que não pode ser
negado e que, por ímpeto sanguíneo, há-de
concretizar-se pela detença. e por ela,
mais tarde, ainda tarde, no dia último
que todos os dias são, cometo o teu nome,
um espectro que compreende outro, sem conseguir
a ilusão de que basta a palavra para dizer-te.

peço o que foi para que seja. amo-te na cruz,
só e tanto. s. d’o.

referência

6.6.17


canção de amigo, ix


fosse, porque é, a hora derradeira, a do exílio
que soma a vaga a falta maior e inteira,
a tua. acuso-me. erro a palavra de acolhimento,
a hipótese de passe, tudo, talvez tudo outra vez.

não fui eu que inventei o amor. não sinto consolo
ou contrição por isso. sinto apenas o que sobra,
ninguém. s. d’o.

referência

1.6.17


canção de amigo, viii


mea culpa, felix culpa, outra. preencho o cadastro
com convicção. não me arrependo de continuar
a amar-te, se tal me suja. nunca presumi inocências.
habituei-me a isso, religião barata.

insisto na requisição, promete-me que morres
ou mais, o engano. s. d’o.

referência

30.5.17


canção de amigo, vii


amo-te. esta morte faz parte do resto. s. d’o.

referência

25.5.17


canção de amigo, vi


a ausência, o que está, como está, o simulacro
da correspondência, o que está também, como está
sempre. qualquer enunciado de amor deixou de ser
pronúncia suficiente. agora exige-se mais.

promete-me que morres sem repetição, o regresso,
um rumor que. s. d’o.

referência

23.5.17


canção de amigo, v


calo-me. torno aos teus olhos, onde o mar,
a cor aberta e habitada dele e mais alguém.
quem?

a continuação. o jogo não obedece às regras
da remissão. s. d’o.

referência

18.5.17


canção de amigo, iv


a morte não comove. porquê continuar? ainda estou aqui,
ainda. o sangue finge o absoluto. ouvem-se as vésperas,
as sicilianas. espero-te.

a insurgência está chamada, o manifesto não foi entregue.
morrer de amor é morrer só. s. d’o.

referência

16.5.17


canção de amigo, iii


um corpo, deus ao lado, regressado e calado, matéria
quase perfeita. a cerveja espera. esta morte não tem nome
dentro do ofício das horas conhecidas.

quero apenas amar-te. sei que não basta. s. d’o.

referência

11.5.17


canção de amigo, ii


entregas-me o que morre - escrevo a tua voz, acabou -,
imagino que para que possas abrir a forma do que,
através de ti, ainda pode vir, o reino confirmado após
a demora, contra todos os fantasmas que estão agora.

e se não? s. d’o.

referência

9.5.17


canção de amigo, i


levantada a sombra dos teus ombros, uma frente
que se põe e repete. algo erra, falha. alguém mais.
sou eu.

não posso dizer que te conheço, posso apenas dizer
que te amo. que será assim outra vez, apesar da culpa,
culpa com atraso, em que não vacilo e a que recuso
despacho de alívio. s. d’o.

referência

26.3.15


ou o poema descontínuo


que a ninguém falte a morte que e como pode, o compromisso,
a apoteose da missão, mão cheia, mãos cheias, ofício que,
lavrado, continuado e repetido, afasta e aproxima, como a gravidade
que, agora, sobrevive à mão caída e quieta. s. d’o.

referência

24.3.15


a comunidade que ainda vem


porque a comungamos, na morte somos comuns,
mais comuns, eternos outra vez, futuro salvo
da promessa, quase demasiado completos.

se feitos?, somos feitos pela mão que nos termina,
continuados pela voz que, assente, essa mão foi capaz
de levantar.  e agora e na hora que for, como antes,
nada, outro silêncio, o mesmo que a memória e o luto
hão-de permitir sufragar e vingar, a continuação. s. d’o.

referência

18.4.13


suite terroir, iv


when england was the whore of the world 
margaret was her madam*


margaret thatcher, i


com que voz choram os mortos?, com que fome os vivos começam
o regresso?, dúvidas. há outras.

o regresso?, dúvidas. há outras. a cerveja preta do buraca, enjoativa,
não é melhor do que a do fernando, agra e cafeinada. sobre a esplanada
de um e outro ou o que as estações são nos estabelecimentos respectivos,
tende-se a evitar o inverno num deles, a dissertação pode ser diferente.
porém, a importância que a conjugação adversativa tem no lançamento
de uma oração, só num desses estabelecimentos pode ouvir-se a isabel
a dizer aquele caralho, ela não aponta porque é feio, com naturalidade
igual à de quem mastiga tremoços como complemento da báscula do cúbito.

compreende-se a senhora que disse there is no such thing as society.
morreu. há sociólogos que escreveram o mesmo e irão ter exéquias
muito mais baratas.

muito mais baratas. as sociedades que há são secretas.  s. d’o.
____________________
* versos in elvis costello, “tramp the dirt down”, in spike, warner bros., 1989.

referência

16.4.13


súbito, iii


o corpo, a gravidade. a mesa balançou. copos de vinho?
ou copos com vinho?
o raciocínio, a resposta mastigada. de,
copos de. o copo
, agora o galope, é uma unidade de medida,
de capacidade
. veio uma mão, abreviou os rins. s. d’o.

referência

4.4.13


súbito, ii


recebeu a inércia que os copos de vinho repetidos agarram. vozes.
submeteu-se ao fôlego, primeiro, aceitou o espólio da respiração,
depois. sete palmos de chão. magnífico, disse, tentando rebater
a afirmação com que se encontrou. ao lado, uma sandes de atum. s. d’o.

referência

2.4.13


súbito, i


combinaram as palavras, o ar delas. ventrículo, o esquerdo,
ventríloquo, à direita. a sala não encheu. s. d’o.

referência

21.3.13


viveu no vermont


as manhãs nunca começam próprias. o céu cheio de vermute,
as mãos sem pão, cheias de opções e orações. a crónica histórica
quase nada conta sobre ele, excepto um episódio. um dia disse
aos embarcados, les géographies solennelles des limites humaines,
palavras que paul eluárd escreveu e alertou-os, esqueçam
o cachalote branco, nós vivemos no vermont. s. d’o.

referência

19.3.13


colisão no v&a


o corpo ali. uma peça de rodin também. a imitação, o espelho
a três dimensões por algo que transformou a massa, aquela
massa. dois passos acrescentados, contorno, o contraste. pausa,
a coligação. o momento fica mais próximo do tamanho do silêncio. s. d’o.

referência

7.3.13


arena


deus habita melhor os lugares sujos, onde estás?, a casa,
a passagem, demoras?, a contaminação. s. d’o.

referência

5.3.13


carne dos deuses pequenos


o derrube começado. deitam-se juntos, crescem a promessa,
descobrem-se cada vez mais nos dias que continuam.
cometem os erros próprios do princípio, usam a palavra
com o sentido de que nunca vai acabar. e o fim apenas já
começou, sem que ele, sem que ela saibam a alegria disso. s. d’o.

referência

21.2.13





síncope pós moderna, tu cá, tu lá,
um cadáver entremeado, uma história
para acender como um cigarro.

há mais ou nunca. s. d’o.

referência

19.2.13


em memória de quem?


estamos a morar nas perguntas, contingência e ofício
da demora, a observar pássaros. os gatos passam
para o sol, passam devagar, fazendo as perguntas
parecer aceleradas. o ritmo das orações ja não nos detém

precisos. há provérbios no facebook?, as perguntas,
haverá alteração ao imposto sobre o valor acrescentado?,
meus deus, estamos a habitar a dúvida, a que horas é o jogo
do benfica?, na sportv?, em memória de quem?, perguntas

cada vez mais difíceis e vitais. s. d’o.

referência

7.2.13


uma vida lo-fi


sabe dos homens sozinhos, a cabeça que têm e a que não têm.
vê o alumínio pop deles, as marquises onde habitam, o cerco
onde já não ninguém quer esperar. também esperar o quê? s. d’o.

referência

5.2.13





o reduto é ambíguo, mais recente do que a geração
erguida de si, portanto estranho à tradição, estranho
à sobrevivência. aparecem muitos lugares vagos,
a ressonância dos espectros, as cicatrizes coladas

ou cosidas nas fotografias, para que haja testemunho
e prolongamento desta paisagem. aparece o festival
íntimo, slow core, palavra após palavra até à canção.
o improviso substituído pela habitação, a hipérbole

substituída pelo consumo, a gratuitidade substituída
pela contaminação, pelo agradecimento, pelas grades
já sem as garrafas de cerveja, sem a rima e a sede.

isto é apenas o corpo numa história, o tempo escorrido
da forma dele, a passagem. mas podia ser o contrário,
outro fenómeno, a totalidade a que falta o pagamento. s. d’o.

referência

24.1.13




não testemunhou o estertor dele. no momento
em que soube da notícia recordou a cesura,
o pai do pai quando tentava soprar através da cana
na direcção do fogo, as sombras queimadas

na parede da cozinha, combinadas com as conversas
de domingo já caído. é neste lugar tangente às horas
que pendem na espera e a fazem, um lugar recomeçado,
na transfusão do que afasta e aproxima, desejos

à parte, é neste lugar que ele está ou, não estando,
imagina estar, onde nenhum sacramento o pode
recomeçar. não há andaimes sobre o corte. a terra

já tomba numa janela que não abre. o corpo apertado,
o desperdício e o antídoto, o nervo e a corda na oração.
foi assim, dizem que é sempre assim, que continua. s. d’o.

referência

22.1.13


extinção


erva, vento chão, perfume lento. também os pés
vão demorar a chegar. ultrapassam a tarde, alastram
o contágio, passo contra passo, o medo, o vinho.
os pés vêm descalços, anunciados assim. ele espera-a,

tem os joelhos travados no chão. é nessa posição
que aguarda e cumpre a promessa. sabe que tanto
do que teve perdeu-se consigo. assume o prejuízo,
não quer absolvição. de quê?, se antes algo o vinculou

ao privilégio de começar, concedendo-lhe quase a eternidade
repetida em cada manhã. agora tem o corpo a entardecer,
quieto na lâmina, a pele sem respiração, como quem sente

a morte que veio antes de a morte chegar. e o mais que vem,
que venha devagar, deseja ele, talvez desejo final, agora
que vê que ela já está próxima e que é para si que chega. s. d’o.

referência

10.1.13





uma traição tão quieta, quase sem parecer
traição, dizer que não te conheço, dizê-lo
três vezes sem dizer, com convicção,
e estar disposto a repetir, se necessário,
se a traição exigir. s. d’o.

referência

8.1.13





alegas a alma. conheço-te para saber que, quando e quanto
tu podes, me engano, muitas vezes e muito, às vezes mais.
não é apenas o lugar como acontecemos que é estranho,
sou eu, repetido assim não só na confirmação mas também

na dúvida, antes, no domicílio onde não havia a pessoa
pela qual somos enunciados. falta-nos o nome, o que nos permite
a essência. não somos como na canção why can’t i be you?
que dançámos tantas vezes. parte da culpa é nossa, só nossa,

parte é minha, toda minha, mea culpa, mea maxima culpa,
sem a mão colocada sobre o peito, a acusar-me. gozo-a
como propriedade, à queima-roupa, no interior da dívida

que posso. welcome to the machine, o assalto é sem ironia.
alegas a alma. conheço-te para saber que, quando e quanto
tu podes, me engano, muitas vezes e muito, às vezes sempre. s. d’o.

referência

16.8.12





boa noite. estávamos para nascer quando a tradição foi substituída
pelo improviso. encontrámo-nos e conversámos muitas vezes
sobre isso, o acontecimento do nosso nascimento, entretendo o cuidado
de não perder o tempo já passado. os medos vinham acompanhar-nos

com frequência, como se fossem novos. a apneia dos mortos, a infância
vaga outra vez, a melancolia que regressa com o final repetido das tardes
neste sul, onde as sombras cobiçam os corpos e os espectros em proporções
iguais, sem distinção de casos, matérias ou fronteira. agora a residência

está calada. as canções mais mortas ganham espaço às outras. o ambiente
é soturno, abafado duplamente, circunstância que está para além do verão.
soam gritos pequenos. não era o que estava previsto, o ruído dos detalhes

começados e a que não foi prestada atenção. a esta hora sente-se a região
das almas exausta. percebemos a dedução das ruínas. o território morno,
uma mão tensa, o desamparo, a lubrificação nos dedos, o estremecimento. s. d’o.

referência

14.8.12


manobra


a tua presença reparte as sombras, o lugar
está mais lento entre nós. dizes não sei, não
ouço mas acredito. também não vejo as paredes,
não detecto o cheiro e o som que extraíamos

delas. trazes a respiração ainda com véspera,
levantada numa inclinação com corpo próprio
e método, outra vez, sopros seguidos de outros.
algo parece estranho. estamos entre o engano

e a origem, eu descalço, tu despida. s. d’o.

referência

9.8.12


uma questão

somos no momento, durante aquele tempo necessário 
para o acontecimento. os corpos precipitam-se, chamamos
aventura à manobra. e depois?, sobrevivemos?, conseguimos
esquecer? s. d’o.

referência

7.8.12


somos, a cidade fingida


disse, a cidade está mais quieta, a nossa, e sentiu o incómodo
do pronome, por causa tanto da pessoa quanto da propriedade
que a gramática lhe atribui. s. d’o.

referência

2.8.12


e as consequências


lê-se, está sublinhado, dylan continua a ser leal à incoerência
dele. continua, presente do indicativo. porém dylan é nome
que há muito deixou de se conjugar nesse tempo verbal. s. d’o.

referência

31.7.12


contra a ausência d’esprit fin de siècle


ainda não perceberam que os jornais e as listas
telefónicas substituíam o papel higiénico e que
ninguém chamava reutilização a esse uso. s. d’o.

referência

22.3.12





não esquecer, é preciso esquecer, continuar
o saque, a glória. é preciso insistir, perseguir
a elevação definitiva e a queda consequente,
uma vibração pequena entre todos os assaltos
do dia, descobrir quase nada entre nada,
o capítulo das revelações que fecha o livro.

depois as orações, o toque do pulso, a procura
do ritmo que aí passa, os olhos ainda abertos.
o resto já não pertence a esta história. s. d’o.

referência

20.3.12





zona de conforto?, evito a discussão. mantenho
o corte, levanto a mão. portugal, one point,
ainda estamos aqui. s. d’o.

referência

15.3.12





desta voz, o fumo, nenhum cântico, nenhum
anúncio. foi assim que deus nos encontrou, calçados
porém calados, sem que estivéssemos à espera dele
ou de que ele nos encontrasse. nunca o chamámos.

a arena está agora sem ninguém. o prato tem couves
e batatas cozidas, o bacalhau e o azeite estão prometidos.
é quase tarde. s. d’o.

referência

13.3.12


paisagem, iii


traz-se a manhã. mudaram-lhe o nome, já não é nosso.

corpo aproado ao promontório, depois sobre ele, no ritmo
macilento ou preguiçoso do marulhar. dali a contemplação,
o friso fragoso do qual se levantam os cortes ásperos
dos leixões, como se emergisse uma polpa de rocha
irregular e porosa, que parece não ferir os golpes de água
como anavalham a carne que se encontre com ela.

a manhã continua a acontecer demorada, como as manhãs
acontecem. as ravinas caídas do bordo dos penedos
permitem sentir a sequência que vai do cerúleo ao glauco. s. d’o.

referência

8.3.12


paisagem, ii


fantasmas, snipers. uma maçã. não tinha percebido
que os anjos estavam nus. no escuro vê-se mal
e eu vejo mal mesmo sem ser no escuro. depois
veio a claridade, descobri o que era o amor
quando vi wild at heart numa sala de cinema
sozinho e continuei a acreditar que podia
não morrer por causa disso. de facto, até hoje
nunca morri. must be a devil between us, ã ã,
or whores at my head, ã?, whores at my door,
conheço a canção, whores in my bed. s. d’o.

__________

paisagem ii inclui versos da canção hey (in doolittle, 4ad, 1989), da banda pixies.

referência

6.3.12


paisagem, i


cia, agência radar, rádio turno sete, em onda curta
e frequência modulada, é à escolha. a mãe olha
para mim, a bíblia tem caligrafado, estou entediado,
os dias quentes fazem-me estrangeiro, god bless,
leio dog bless. s. d’o.

referência

1.3.12


despejo por consentimento mútuo


sangue outra vez. estou com pressa, demoras?, não espero
pela resposta, é sangue, só ouço o que como murmúrio fica
para trás, excedi-me novamente. não sou delicado, tento
ser discreto. esta não é a minha estreia com fantasmas.
na imaginação costumam ser diferentes, cinematográficos
sobretudo, sem necessidade de manipulação ou efeitos
de pós-produção. aparecem quando acontecem apocalipses
íntimos, dispensam atmosferas, não entram nos ciúmes
ou nos crimes fáceis em que a voz é cruel, aparecem apenas
e ficam calados, como se se anunciassem para o assalto
através da presença.

onde estás?, já não estou, evitei-me a tempo de perceber
a ausência, o espectro dela. não estou na linha de passe.
posso ir ter contigo?, para quê?, tenho que sair, não posso
ficar
, assalto-me.

estupefacientes quentes, tu ainda queres o meu paradeiro?,
o cavalo galopa na prata, ainda queres saber se estou aqui?,
continuo a não estar.

continuo a não estar. aproximo-me devagar, olá, não vejo
a emília a brincar, abre os olhos, estou quase a chegar?
ou é o fim a começar a acontecer? s. d’o.

referência

2004/2017 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).