5.2.10
a possibilidade dos lugares, ii
a vida é fácil, eu não acredito, é fazer as conjecturas certas, se assim
fosse seria demasiado fácil, é esquecer a cada instante a hipótese
de não haver substância ou subsistência sob os teus pés, continuo
a não acreditar e a não ter motivo para acreditar, é confiar na colisão
com as horas. olho os pulsos, faltam-lhe as marcas. talvez esteja a ver
mal, talvez necessite de outra educação. a culpa não se apaga assim. s. d’o.
3.2.10
a possibilidade dos lugares, i
excepto aqui. rés às vidas, colhes o espaço, colheita do outono
de dois mil e nove. aqui está assinalado, mas é-te indiferente
tanto o sinal quanto o lugar para o qual o sinal remete.
talvez possamos fazer algo diferente, conversar, por exemplo.
talvez eu possa dizer tu és rei porque combateste muito
e venceste muitos, ainda que isso não seja verdade. podemos fingir
a hipocrisia, ninguém há-de reparar. s. d’o.
1.2.10
nada para a noite
as etapas e as regras da habitação exigem respiração.
há muito tempo que habito esta casa e apalpo as paredes
para extrair delas a ocupação. separo-me assim, por dentro.
não lamento a cegueira por que me confesso, sei que não vejo,
simplesmente não vejo. para além disto, por não ver, para mim
o tempo tornou-se o mesmo, noite permanente e sem auxílio.
où va la lumière quand on l’éteint?, não formulo esta pergunta,
atalho para a condição de goethe. a respiração une-nos à morte
e cada um de nós ronda a distância entre tanto e quase, explora
a hipótese das paredes, a guarda que providenciam - neste caso
uma possibilidade como qualquer outra.
dizes há uma mancha acima, acima de quê?, acima de amo-te,
não consigo entender, como se fosse um vaso. janeiro começa
sempre em dezembro. é ainda a noite longa. s. d’o.
22.1.10
todas as manhãs
aqui, pode riscar-se aqui,
olhos?, não sei. tenho mais dúvidas do que certezas,
mas tanto aquelas quanto estas não as posso sofrer
demasiado. o excesso de umas ou outras é o mesmo mal,
um aperto. não devemos meter-nos em apertos, é suficiente
a condição nossa, portanto precisa. talvez seja desnecessário
enunciar isto, não sei, ainda assim arrisco, a segurança
mínima antes do que o que nos transcende, o registo provisório,
o saldo negativo, a segunda língua, a terceira metade, a terceira
mão, as conjecturas, a plausibilidade, as probabilidades
e o cálculo delas. agora, também pode riscar-se agora,
uma mão, não sei de ti, procuro-te. nunca te vi. toco um espelho,
nada. s. d’o.
20.1.10
retrovisor
devia ser possível escrever sem voz, sem sobre,
e mesmo assim cortar o silêncio, cortá-lo por dentro,
como se corta a luz. bastar-me-ia esta inutilidade
para compreender o manuseamento da hipótese do corpo
espontâneo, assim como do corpo combinado, nada perder,
nada ganhar, transferir para a tardança o que já não pode
ser, o que sempre pôde ser, tudo porque podemos morrer
outra vez, precisamente outra vez, embora sem a mesma vontade.
e depois?, há sempre depois, uma voz de modo diferente
para cortar, para continuar a cortar até dizer-se chega,
por não haver mais matéria que não seja o silêncio. então,
que fazer?, cortar o silêncio também, não deter ou sossegar
a lâmina, prosseguir até que deus se renda e deixe os mortos
continuarem enterrados, com o peso que lhes foi atribuído.
antes do corte, depois do corte, a imputação única das mulheres
e dos homens, sob a qual ninguém espera a remissão da identidade,
porque as palavras foram adiantadas ao que pode ser. tudo,
alguém há-de dizer, ou nada. s. d’o.
18.1.10
arrumação
acho que não posso mas posso. o regime é de premências,
de como as coisas são no tempo próprio das coisas.
para não variar, deserto da campanha, vou comer uma sandes
de leitão. tratar o corpo, primeiro, não alimentar ilusões,
ao mesmo tempo. o que é que isto interessa?, pouco, se algo
mais do que nada. na verdade ando a aprender a descobrir
a lealdade nas interrogações, nos problemas e nos traumas
que as interrogações combinam. não tenho ilusões, não
se trata de trocar quem seja o senhor presidente da câmara
municipal.
na cidade não ouço as pronúncias, não observo os remendos
da boca. sou lento porém na mesma urgência do músculo.
pertenço à tribo dos que demoram tudo, inclusive a febre,
o suor, o sémen. chamo um táxi, esta já não é a minha safra.
hei-de chegar tarde, mas hei-de chegar, é o que importa.
escrevo a medo, não com medo ou por medo, escrevo esta declaração
a medo. sei-a um modo de apelo, sem certeza. há muito tempo
que ando a tentar endurecer o miocárdio. nada mais desejo declarar
agora. s. d’o.
8.1.10
o passado é agora
zumbe o tempo, a perseguição. sou uma câmara animal
e o espólio de falência que me acompanha. e agora?
talvez devesse chamar poder à incapacidade de actualidade
que sofro, porém não quero. basta-me demorar, sentir
o arrasto pelo qual sou. se em mim é cada vez mais ontem,
se sou sem dialéctica para adiantamento, sou simplesmente
assim, não sou por já ter sido ou por ter-me rendido. s. d’o.
6.1.10
à la recherche
aqui, até onde não há onde, declaro-te
a ferida é uma arma. s. d’o.
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“até onde não há onde” é o princípio de uma frase do sermão de nossa senhora do ó, escrito por antónio vieira.
4.1.10
25.12.09
2004/2010 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).
