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almanaque de ironias menores

caderno de exercícios avulsos e breves, por serôdio d’o. & 3ás 

30.9.09


low fidelity

quando te pões a caminho, caminhas mas sem ter presente
que o destino é teu. apenas o horizonte. os passos condenam-te
a ser movimento, repetição de ti sobre o mesmo chão,
plataforma e cratera. não ris como yorick, caminhas apenas
para a perdição. por que é que não levas companhia? s. d’o.

referência

28.9.09


o cavalo não tem a culpa

tu dizes derrotar a realidade, dizes com entusiasmo,
mas eu moro numa ilha, não sei o que é a realidade,
combato todos os dias em vão, sem poder vencer,
sem poder conquistar-te, posso apenas permanecer e,
às vezes, isso é já excitação suficiente, admitir que é
possível ser diferente, que posso sair, embora,
sinceramente, eu more numa ilha e numa ilha morre-se
assim, sem remorso, sem remissão, morremos e ficamos
sem palavra. também para quê é que haveríamos de ficar
com palavra? s. d’o.

referência

18.9.09


não sou democrata

dizes-me tens de ir votar com ênfase de mãe, transferindo para mim
uma obrigação como se ela fosse parte do meu sangue e da dívida
que o meu sangue transporta, quando eu quero apenas ficar triste,
saber que perdi, que já perdi, antes de poder esboçar qualquer gesto,
uma queixa, um movimento de resistência. tu insistes. não me importo.
agora vou lavar as mãos, tu costumavas dizer-me não te esqueças de lavar
as mãos
, lavar as mãos é muito importante, aprendi contigo esta lição,
vou lavar as mãos para ir almoçar. não desisti, tenho fome. hoje não estou
com paciência para cruzes. já apostei na sexta-feira e não ganhei. s. d’o.

referência

16.9.09




neste poema falta um gato. nada posso
fazer. chamei-o mas ele afastou-se
e enroscou-se, no lugar onde costuma
dormir, à espera de uma mão que o afague
onde ele está. não posso valer-lhe.
as mãos que tenho não alcançam as mortes
pequenas, estão a oficiar este poema,
uma sobre a folha, a outra a conduzir
a esferográfica, a escrever o luto
que não declaro ou pretendo, porque é fingido.

ainda vejo a luz contraída, o nevoeiro
parisiense, as pernas de uma mulher. s. d’o.

referência

14.9.09


de nada, en rêvant amours monstres

ser até à exustão, até à medida da palavra, do final dela.
a armadilha, a luz de setembro, a revelação, a decadência.
as sombras transfiguradas em tom outonal, a vindima, os corpos
na vindima, o suor, o sangue, o vinho. vultos maduros, ofícios
inteiros, a força do trabalho, até ceder. o amparo do chão,
o cálice dos sobreviventes. porquê?, a que névoa foram robustos?
o silêncio filosófico. ser até à exaustão, ser até à extinção,
à declaração morena da desistência.

o fruto colhido nos cestos, carregados nos ombros até ao lagar.
o movimento continua. aqui em baixo as coisas ainda estão turvas.
dos que caem das torres, vêem-se as linhas do céu, o exílio
dos mortos. nada disto é saudade. s. d’o.

referência

4.9.09

“fortalecei-me com maçãs,
porque desfaleço de amor”.
*


jogo final

falta-me a coragem para ser vagabundo. posso culpar a grei
desta falta de coragem, falta que é minha. a grei vincula-me
a outros, faz-me dependente da alteridade e faz a alteridade
depender de mim, numa sucessão de compreensões cujo princípio
já não é possível compreender como foi. agora a compreensão depende
tanto da companhia quanto da solidão. alguém ainda pode ser nómada?

apesar da improbabilidade, a grei não existe. eu teria de ser nómada
através de outros e por causa deles, rota fatal.

julgo que já li a fome. foi numa segunda-feira ou terça-feira
ou quarta-feira ou sexta-feira, não leio ao sábado e ao domingo
e, porque é dia de mercado, à quinta-feira não leio a fome
como leio nos outros dias, pelo que, tendo lido a fome e não
sabendo em que dia sucedeu isso, li-a num dia que não sei qual,
mas que também não interessa saber, terá sido uma segunda-feira
ou terça-feira ou quarta-feira ou sexta-feira. a fome é um poema
clássico, não é um poema moderno. antigamente chamavam-lhe
veredicto, actualmente crêem que seja um estímulo e que o exercício
em ginásio é um ersatz somático dela. nenhum deus testemunhou
ou ofereceu a fome.

afirmo: um dia li a fome. depois o amor passou ao ataque,
combateu-me, combati-o, estanquei-o. o amor mata, o amor fere,
o amor morre. erro cravado, carne espetada, corpo incerto. um dia li
a fome e agora sou-a, capaz de amar e morrer, amado e morto,
vagabundo que não tenho coragem para ser. culpo os outros
que me culpam também. somos comunidade, não nos conhecemos.

deportado para um pomar de macieiras, hei-de ser alimentado
pelo fruto do bicho, da evidência e da culpa, conforme narrativa
do princípio. o princípio foi há muito tempo, poderíamos esquecê-lo
e, em comunhão, dedicar cuidado maior ao fim, para merecê-lo
íntegro, como merecemos o pó que haveremos ser e a casca do fruto
que palpamos e mordemos. por algum motivo, somos insistidos
no princípio irrevogável. nenhum alívio podemos, podemos apenas
escolher. escolho não cultivar o horto. li a fome, sei que li a fome.
e sei que no fim estará escrito game over e não haverá depois
ou mais amor para nos enfraquecer. s. d’o.
__________
* versos do versículo quinto, do capítulo segundo de cântico dos cânticos.

referência

2.9.09




sofro a inveja de não ser o factor de um verso
de hatherly, “viver é uma hemorragia calculada”. s. d’o.

referência

2004/2017 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).