30.4.10
suite roteiros, i
plano grande
vê-se alguém a escrever, a escrever com uma esferográfica, a escrever com uma esferográfica num caderno, a escrever com uma esferográfica num caderno sobre uma mesa. depois vê-se uma mão numa luva branca a tocar no ombro esquerdo de quem está a escrever. quem está a escrever levanta-se e não vê a mão numa luva branca que lhe tocou no ombro esquerdo. a mão numa luva branca que tocou no ombro esquerdo de quem estava a escrever pertence a um fantasma, um fantasma que saiu de um livro aberto, um fantasma que saiu de um livro aberto ao lado do caderno sobre a mesa onde alguém estava a escrever. a mão numa luva branca continua a tocar no ombro esquerdo de quem se levantou, a tocar no ombro esquerdo várias vezes. o fantasma é um anjo, o fantasma é um anjo que não se vê. acentua-se a perturbação de quem estava a escrever com uma esferográfica num caderno sobre uma mesa. foram escritas frases duras e fortes, sem adjectivos como duras e fortes. quem estava a escrever com uma esferográfica num caderno sobre uma mesa pega no livro aberto que estava ao lado do caderno e rasga quatro, cinco, seis, sete folhas, o dobro em páginas. sai sangue do livro, do livro que as mãos fecharam depois de o terem rasgado. agora vê-se uma pessoa a martelar o livro, a martelá-lo sobre uma bigorna. continua a escorrer sangue do livro. s. d’o.
28.4.10
engrenagem
da peregrinação ao exorcismo, as duas faces do acto,
o gesto lançado para as coisas, amanho no qual há intenção
de obra. esquece o princípio, esquece o fim, fixa-te
no movimento.
e agora o quê? a dispersão dos fragmentos, as metáforas
sem ligação e sem soberania, o ritmo da infância pela soletração,
pelas sílabas e pela combinação delas. e quando o sentido inverso?
o sublime é tudo excepto a respiração, a respiração apenas,
o compasso, a sobrevivência em exercício, não em celebração.
sinto o corte, o desdobramento, o processo erguido em vozes,
o convívio feito pela rebentação do horizonte. e tu dizes
será o que será, embora na tua oração não se saiba o quê. s. d’o.
26.4.10
descobri adereços e luz no sótão, a tensão da identidade
trazida no corpo e no tempo, teatro nenhum. entre a introspecção
e a projecção, a distorção. o que existiu antes de mim também está
aqui e agora. eu e as coisas do passado partilhamos este lugar
e este momento. não é demência, é cesura, um rasgo capital nas mãos,
que prolonga e recupera o tempo para além do que os dedos seguram.
a austeridade do desperdício, isto é ser, sou assim. acredito
nas hesitações, nas perdas e que a concentração será a nossa morte.
as mãos, estas mãos, são testemunho de um tempo que não é só meu. s. d’o.
16.4.10
estou a escrever a palavra doença e vejo dois cães
na calçada da praça mouzinho de albuquerque, deitados
sob o sol. esta janela é um écran estranho. será terminal? s. d’o.
14.4.10
a frase, a voz única, a respiração que permanece. desde wittgenstein
que o misticismo está mais claro, a relação com ele é que está mais baça.
peço-te tempo, mais algum tempo, se fazes favor, o tempo é o excesso
de quem vive, e tu respondes-me já não tens tempo. concordo contigo,
nunca tive. s. d’o.
12.4.10
tenho os males que prefiro, nenhum por tempo breve.
acontecem-me imediatos e demorados, não sei explicar
melhor. tu dizes tantas vezes, tantas vezes, enquanto
eu olho a fotografia e pergunto onde está o fotógrafo?
e tu continuas a dizer avisei-te tantas vezes, para quê
encher a imaginação?, para quê esgotar-lhe a capacidade?
e eu acrescento um fotógrafo deve sentir-se de saltos altos
mas é mentira, estou descalço e tenho os pés frios, sinto
apenas inveja. s. d’o.
2.4.10
palimpsesto
é nas mãos onde mais sinto que o tempo cai
sobre mim. coisas que fazia e já não faço, coisas
que nunca fiz, todas resumidas no amanho
que ainda posso, não muito, cada vez menos,
porém tanto para mim, ganho e perda do que sou.
só a ti nada disto digo. s. d’o.
2004/2024 - serôdio d’o. & 3ás (escritos e subscritos por © sérgio faria).